Vamos conversar?

Vício em jogos em mulheres: como a hipnose pode ajudar a se libertar

Começa como distração. Um aplicativo de cassino no celular, um bilhete de loteria, uma aposta online antes de dormir. "Só para relaxar", você pensa. "Só essa vez."

Mas de um dia para o outro, você percebe que não consegue parar. Que está pensando no próximo jogo enquanto faz o jantar. Que escondeu um gasto do seu companheiro. Que sente aquela fisgada no peito quando tenta não jogar.

E, junto com tudo isso, vem a culpa, porque mulheres não deveriam ter esse problema, certo?

Errado. O vício em jogos afeta mulheres em números crescentes e de uma forma muito específica, que raramente aparece nas conversas sobre o tema.

Este artigo é para você que reconhece alguma parte da sua história aqui, e quer entender o que está acontecendo e o que pode ser feito.

Você vai encontrar aqui:

  • Por que mulheres desenvolvem vício em jogos de formas diferentes dos homens

  • Quais os sinais de alerta que merecem atenção

  • As condições que costumam andar junto com esse transtorno

  • Como a hipnoterapia pode ajudar a romper o ciclo

  • O que esperar do processo de recuperação

O que é o vício em jogos e por que ele é reconhecido como doença?

Como a hipnose ajuda a se libertar do vício dos jogos

O vício em jogos, chamado tecnicamente de Transtorno do Jogo, é reconhecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) desde 1980 e está classificado no DSM-5, o manual diagnóstico de transtornos mentais, na categoria de "Transtornos Relacionados a Substâncias e Outros Transtornos Aditivos".

Isso não é exagero: o jogo patológico age no cérebro de forma muito semelhante ao vício em substâncias químicas.

Ele ativa o sistema de recompensa dopaminérgico, o mesmo mecanismo do álcool e de outras drogas, criando um ciclo de busca por prazer imediato que fica cada vez mais difícil de interromper.

No Brasil, estima-se que o transtorno do jogo afete entre 1% e 2,3% da população. Uma pesquisa da USP mostrou que 12% dos brasileiros já apostaram ao menos uma vez na vida e que o vício em apostas ficava atrás apenas do álcool e do cigarro entre os comportamentos compulsivos mais comuns.

Importante: o vício em jogos não é fraqueza de caráter. É um transtorno comportamental com base neurológica, que responde a tratamento.

O vício em jogos em mulheres tem uma cara diferente e poucos falam sobre isso

Durante muito tempo, o jogo patológico foi estudado e tratado com base no perfil masculino. Mas pesquisas recentes mostram que mulheres desenvolvem esse transtorno de formas distintas e que, justamente por isso, muitas delas chegam tarde ao diagnóstico e ao tratamento.

Um estudo publicado no Frontiers in Psychology (2023) mapeou as características psicossociais específicas de mulheres com Transtorno do Jogo e encontrou padrões consistentes:

Mulheres jogam para escapar, não para ganhar

Enquanto homens tendem a jogar pela emoção da competição, pelo desafio e pela busca de ganhos financeiros, mulheres usam o jogo principalmente como mecanismo de fuga emocional. Solidão, tédio, estresse acumulado, conflitos relacionais, sobrecarga de cuidado, é nesses momentos que o jogo aparece como alívio.

Essa diferença é fundamental: para mulheres, o jogo não está respondendo à necessidade de vencer. Está respondendo à necessidade de não sentir.

O início acontece mais tarde e escala mais rápido

Em média, homens começam a jogar entre os 18 e 20 anos. Mulheres iniciam entre os 29 e 34 anos, geralmente em momentos de crise, luto, solidão ou transição de vida.

Mas uma vez que o padrão se instala, a escalada para o vício tende a ser mais rápida.

A culpa e o silêncio são maiores

O estigma em torno do vício em jogos já é grande. Para mulheres, ele é ainda mais pesado, porque o transtorno é historicamente associado ao público masculino. Isso faz com que muitas mulheres escondam o problema por mais tempo, adiando a busca por ajuda.

Um dado que evidencia isso: 40% das mulheres com jogo patológico buscam tratamento, contra apenas 18% dos homens. Quando decidem pedir ajuda, elas realmente pedem.

Trauma e violência andam junto

Pesquisas mostram que mulheres com Transtorno do Jogo apresentam com maior frequência histórico de violência psicológica, experiências adversas na infância e esquemas desadaptativos como autopunição, privação emocional e autossacrifício.

O jogo, nesse contexto, não é entretenimento, é uma estratégia de sobrevivência emocional que saiu do controle.

Observe o infográfico abaixo que aborda quando o jogo vira um problema real:

Infográfico quando o jogo virou problema

O diagnóstico clínico do Transtorno do Jogo requer a presença de quatro ou mais desses critérios em um período de 12 meses. Mas mesmo antes disso, se qualquer um desses padrões está presente na sua vida, ele merece atenção.

O que costuma andar junto com o vício em jogos em mulheres?

O jogo patológico raramente vem sozinho. Em mulheres, a comorbidade com outros transtornos psicológicos é especialmente alta e isso precisa ser considerado no tratamento.

Uma revisão narrativa publicada em 2025 sobre comorbidades do Transtorno do Jogo encontrou que mulheres apresentam maiores taxas de transtornos de humor, ansiedade e comportamento suicida associadas ao jogo patológico do que homens. Os transtornos mais comuns incluem:

  • Depressão: presente em até 75% dos casos de jogo patológico, segundo dados do NIMH

  • Ansiedade: 60% dos jogadores patológicos apresentam algum transtorno de ansiedade, com ansiedade social mostrando as associações mais fortes, especialmente em mulheres jovens

  • TEPT e traumas: histórico de experiências adversas na infância e violência aumentam significativamente a vulnerabilidade

  • Transtornos de personalidade: especialmente os relacionados à regulação emocional e à autoimagem

  • Uso de substâncias: álcool e outras substâncias aparecem como comorbidade em parte dos casos

Por que isso importa? Tratar só o comportamento de jogar sem cuidar do que está por baixo, a ansiedade, o trauma, a depressão, a solidão — é como tapar um buraco no telhado sem consertar a estrutura. O tratamento eficaz precisa olhar para o todo.

Como a hipnoterapia pode ajudar no vício em jogos?

A hipnoterapia é uma abordagem terapêutica que trabalha em estado de relaxamento profundo para acessar e modificar padrões automáticos da mente os mesmos padrões que alimentam comportamentos compulsivos como o jogo.

Diferente de abordagens que trabalham apenas no nível consciente, a hipnose alcança as camadas onde ficam armazenadas as crenças, os gatilhos emocionais e os mecanismos de fuga que sustentam o vício.

E é exatamente aí que o trabalho precisa acontecer.

As pesquisas nessa área mostram resultados consistentes:

Redução do craving e dos gatilhos

Estudos mostram que a hipnoterapia pode reduzir o craving (compulsão imediata) em vícios comportamentais e de substâncias em uma média de 26% a 35% com efeitos que se mantêm de 3 a 6 meses após o tratamento. Para o jogo, isso significa menos urgência no momento em que o gatilho aparece.

Aumento das taxas de abstinência

Uma revisão de evidências mostrou que a hipnoterapia combinada ao tratamento convencional melhora as taxas de abstinência em 33% a seis meses em comparação ao tratamento isolado. Um estudo separou 49 participantes com vício em jogo em dois grupos, um usando TCC com hipnose autoadministrada e outro usando TCC convencional.

Ambos mostraram reduções significativas nos comportamentos de jogo, com manutenção dos resultados após seis meses de acompanhamento.

Trabalho nas raízes emocionais

Para mulheres cujo jogo funciona como fuga emocional, a hipnoterapia oferece algo que outras abordagens muitas vezes não alcançam: a possibilidade de ressignificar as memórias e crenças que criaram a necessidade de fugir.

Traumas relacionais, crenças de autopunição, medo de sentir, tudo isso pode ser trabalhado em estado hipnótico, de forma segura e guiada.

Regulação do estresse e das emoções

A hipnose reduz os níveis de cortisol (hormônio do estresse) em média 31% e o estresse crônico é apontado como um dos principais gatilhos de recaída em 60% a 70% dos casos de dependência comportamental.

Ao criar uma base emocional mais estável, a hipnoterapia reduz a probabilidade de que situações difíceis se tornem gatilhos para o jogo.

Fortalecimento do autocontrole e da autoestima

A hipnoterapia trabalha diretamente no fortalecimento da percepção de autoeficácia, a crença de que você é capaz de fazer escolhas diferentes. Para mulheres que carregam culpa, vergonha e sensação de perda de controle, isso é parte fundamental da recuperação.

Mulher e vício em jogos na internet

A hipnoterapia sozinha resolve?

Honestamente: depende da profundidade e da história de cada caso. Para transtornos leves a moderados, a hipnoterapia pode ser suficiente como abordagem principal. Para casos com comorbidades, depressão, ansiedade, trauma, dependência de substâncias, ela funciona melhor como parte de um cuidado integrado.

Pesquisas mostram consistentemente que hipnose + TCC produz resultados superiores a qualquer uma das abordagens isoladas.

O ideal é que a hipnoterapia faça parte de um plano de cuidado que pode incluir acompanhamento psicológico, suporte de grupos terapêuticos e, quando necessário, avaliação psiquiátrica.

O que é importante saber: a recuperação do jogo patológico não exige vontade de ferro. Exige suporte adequado, abordagem correta, e alguém que entenda o que está por trás do comportamento, não só o comportamento em si.

Como é o processo na prática? O que acontece nas sessões?

A primeira sessão começa com escuta. Antes de qualquer técnica, o terapeuta precisa entender sua história: quando o jogo começou, o que costuma disparar o comportamento, o que você já tentou, como está seu estado emocional geral.

Nas sessões de hipnoterapia propriamente ditas, você é guiada para um estado de relaxamento profundo, consciente, segura, no controle. Nesse estado, o trabalho pode envolver:

  • Identificação e ressignificação dos gatilhos emocionais que precedem o jogo

  • Trabalho com memórias e crenças que sustentam o comportamento

  • Criação de novas respostas automáticas para situações de estresse ou solidão

  • Sugestões de fortalecimento da autoestima e do autocontrole

  • Ancoragem de estados de calma para usar fora das sessões

A maioria dos protocolos trabalha com entre seis e dez sessões. Algumas mulheres percebem mudanças na urgência e nos pensamentos sobre o jogo já nas primeiras semanas. O ritmo é sempre individual.

Quando buscar ajuda e por que não esperar a crise chegar ao fundo?

Existe um mito de que é preciso "bater no fundo" para buscar ajuda. Não é verdade e esperar esse ponto muitas vezes significa mais dívida, mais desgaste nos relacionamentos, mais dano à saúde emocional.

Se você reconhece algum dos sinais abaixo, já é hora de conversar com alguém:

  • O jogo está ocupando um espaço mental que você não quer que ele ocupe

  • Você já tentou parar ou reduzir e não conseguiu

  • Existe alguma mentira ou segredo associado ao comportamento

  • Você percebe que joga mais quando está mal emocionalmente

  • Há consequências financeiras que estão te preocupando

  • A culpa e a vergonha estão maiores do que o prazer

Você não precisa resolver isso sozinha. E não precisa esperar piorar para merecer cuidado.

Conclusão

O vício em jogos em mulheres tem características próprias e por muito tempo essas características foram ignoradas. A mulher que joga para não sentir, para escapar de uma vida que ficou grande demais, para encontrar um momento que seja só dela, mesmo que destrutivo, essa mulher existe.

E ela merece uma abordagem que entenda essa história, não só que tente apagar o comportamento.

A hipnoterapia oferece exatamente isso: uma forma de trabalhar nas raízes do comportamento, não só nos ramos. De cuidar do que está por baixo, o estresse, o trauma, a solidão, a necessidade de controle, para que o jogo deixe de ser a única saída disponível.

A recuperação é possível. E começa com uma conversa honesta.

Perguntas frequentes sobre vício em jogos em mulheres

O vício em jogos afeta mais homens ou mulheres?

Historicamente, mais homens recebem diagnóstico de Transtorno do Jogo, mas isso não significa que mulheres sejam menos afetadas.

O perfil feminino do vício é diferente, muitas vezes menos visível, e por isso menos diagnosticado. Com a expansão das apostas online, a prevalência em mulheres está crescendo significativamente.

Apostas online e aplicativos de cassino também causam vício?

Sim, e são especialmente problemáticos. A acessibilidade (disponível 24h, pelo celular, em casa), a privacidade e a velocidade das apostas online tornam esse formato particularmente propenso a criar dependência.

Para mulheres que usam o jogo como fuga emocional, jogar sozinha à noite pelo celular pode escalar muito mais rápido do que jogar em um ambiente social.

É possível parar de jogar sem ajuda profissional?

Para casos leves, algumas pessoas conseguem reduzir com estratégias próprias.

Mas quando o comportamento já apresenta vários dos critérios do Transtorno do Jogo, especialmente tentativas frustradas de parar, mentiras e impacto emocional ou financeiro, o suporte profissional aumenta significativamente as chances de recuperação real e duradoura.

A hipnoterapia funciona para qualquer pessoa?

A maioria das pessoas pode se beneficiar da hipnoterapia, inclusive aquelas com baixa hipnotizabilidade. O terapeuta adapta as técnicas ao perfil de cada pessoa.

O que varia é a profundidade do trabalho e o número de sessões necessárias.

Como falar sobre esse problema com alguém próximo?

Escolha um momento calmo, sem conflito em andamento. Fale sobre o que você está sentindo, não sobre o comportamento em si. "Estou percebendo que perdi o controle sobre algo e quero buscar ajuda" é mais fácil de ouvir do que uma lista de consequências.

Se não consegue falar diretamente, buscar ajuda profissional primeiro pode te dar o suporte para ter essa conversa.

Quantas sessões de hipnoterapia são necessárias para resultados?

Protocolos para dependências comportamentais costumam trabalhar com seis a dez sessões.

Mudanças no craving e nos gatilhos podem ser percebidas nas primeiras semanas, mas o trabalho mais profundo nas crenças e na regulação emocional, acontece ao longo do processo. Na Conectar Mentes, o plano é sempre construído de forma individual.

Se você se reconheceu neste texto e está em Santa Catarina ou São Paulo, o atendimento presencial da Conectar Mentes está disponível para você.

Também atendo online.Você não precisa resolver isso sozinha e não precisa esperar piorar para merecer cuidado. Agende sua primeira conversa.

Referências

Frontiers in Psychology. Exploring the psychosocial characteristics of women with gambling disorder through a qualitative study. 2023. https://doi.org/10.3389/fpsyg.2023.1294149

PMC. Association Between Gambling Motives, Violence and Early Maladaptive Schemas in Women with Gambling Disorder. 2024. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC11390860/

Tandfonline. Gambling disorder comorbidity: a narrative review. 2025. https://www.tandfonline.com/doi/full/10.1080/19585969.2025.2484288

Springer. Examining the Strength of the Association Between Problem Gambling and Gambling to Escape: A Systematic Review and Meta-Analysis. 2024. https://link.springer.com/article/10.1007/s11469-024-01354-5

Birches Health. Can Hypnosis Help Treat Gambling Addiction? https://bircheshealth.com/resources/hypnosis-gambling-addiction

Riverside Recovery. Hypnosis for Addiction: Does It Work? https://rrtampa.com/self-hypnosaddiction-recovery/

Ovid / LJMH. Clinical Hypnosis in the Prevention and Treatment of Addiction and Mental Health Disorders: A Narrative Review. 2026. https://www.ovid.com/jnls/ljmh/fulltext/10.4103/ljmh.ljmh_5_26

USP / Terra. Vício em jogo cresce no Brasil e pode até levar à falência. https://www.terra.com.br/vida-e-estilo/saude/vicio-em-jogo-cresce-no-brasil-e-pode-ate-levar-a-falencia,a410b2519a57e88ec9af93880ac10867bj5md2mu.html

Vício em jogos em mulheres: como a hipnose pode ajudar a se libertar

Começa como distração. Um aplicativo de cassino no celular, um bilhete de loteria, uma aposta online antes de dormir. "Só para relaxar", você pensa. "Só essa vez."

Mas de um dia para o outro, você percebe que não consegue parar. Que está pensando no próximo jogo enquanto faz o jantar. Que escondeu um gasto do seu companheiro. Que sente aquela fisgada no peito quando tenta não jogar.

E, junto com tudo isso, vem a culpa, porque mulheres não deveriam ter esse problema, certo?

Errado. O vício em jogos afeta mulheres em números crescentes e de uma forma muito específica, que raramente aparece nas conversas sobre o tema.

Este artigo é para você que reconhece alguma parte da sua história aqui, e quer entender o que está acontecendo e o que pode ser feito.

Você vai encontrar aqui:

  • Por que mulheres desenvolvem vício em jogos de formas diferentes dos homens

  • Quais os sinais de alerta que merecem atenção

  • As condições que costumam andar junto com esse transtorno

  • Como a hipnoterapia pode ajudar a romper o ciclo

  • O que esperar do processo de recuperação

O que é o vício em jogos e por que ele é reconhecido como doença?

Como a hipnose ajuda a se libertar do vício dos jogos

O vício em jogos, chamado tecnicamente de Transtorno do Jogo, é reconhecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) desde 1980 e está classificado no DSM-5, o manual diagnóstico de transtornos mentais, na categoria de "Transtornos Relacionados a Substâncias e Outros Transtornos Aditivos".

Isso não é exagero: o jogo patológico age no cérebro de forma muito semelhante ao vício em substâncias químicas.

Ele ativa o sistema de recompensa dopaminérgico, o mesmo mecanismo do álcool e de outras drogas, criando um ciclo de busca por prazer imediato que fica cada vez mais difícil de interromper.

No Brasil, estima-se que o transtorno do jogo afete entre 1% e 2,3% da população. Uma pesquisa da USP mostrou que 12% dos brasileiros já apostaram ao menos uma vez na vida e que o vício em apostas ficava atrás apenas do álcool e do cigarro entre os comportamentos compulsivos mais comuns.

Importante: o vício em jogos não é fraqueza de caráter. É um transtorno comportamental com base neurológica, que responde a tratamento.

O vício em jogos em mulheres tem uma cara diferente e poucos falam sobre isso

Durante muito tempo, o jogo patológico foi estudado e tratado com base no perfil masculino. Mas pesquisas recentes mostram que mulheres desenvolvem esse transtorno de formas distintas e que, justamente por isso, muitas delas chegam tarde ao diagnóstico e ao tratamento.

Um estudo publicado no Frontiers in Psychology (2023) mapeou as características psicossociais específicas de mulheres com Transtorno do Jogo e encontrou padrões consistentes:

Mulheres jogam para escapar, não para ganhar

Enquanto homens tendem a jogar pela emoção da competição, pelo desafio e pela busca de ganhos financeiros, mulheres usam o jogo principalmente como mecanismo de fuga emocional. Solidão, tédio, estresse acumulado, conflitos relacionais, sobrecarga de cuidado, é nesses momentos que o jogo aparece como alívio.

Essa diferença é fundamental: para mulheres, o jogo não está respondendo à necessidade de vencer. Está respondendo à necessidade de não sentir.

O início acontece mais tarde e escala mais rápido

Em média, homens começam a jogar entre os 18 e 20 anos. Mulheres iniciam entre os 29 e 34 anos, geralmente em momentos de crise, luto, solidão ou transição de vida.

Mas uma vez que o padrão se instala, a escalada para o vício tende a ser mais rápida.

A culpa e o silêncio são maiores

O estigma em torno do vício em jogos já é grande. Para mulheres, ele é ainda mais pesado, porque o transtorno é historicamente associado ao público masculino. Isso faz com que muitas mulheres escondam o problema por mais tempo, adiando a busca por ajuda.

Um dado que evidencia isso: 40% das mulheres com jogo patológico buscam tratamento, contra apenas 18% dos homens. Quando decidem pedir ajuda, elas realmente pedem.

Trauma e violência andam junto

Pesquisas mostram que mulheres com Transtorno do Jogo apresentam com maior frequência histórico de violência psicológica, experiências adversas na infância e esquemas desadaptativos como autopunição, privação emocional e autossacrifício.

O jogo, nesse contexto, não é entretenimento, é uma estratégia de sobrevivência emocional que saiu do controle.

Observe o infográfico abaixo que aborda quando o jogo vira um problema real:

Infográfico quando o jogo virou problema

O diagnóstico clínico do Transtorno do Jogo requer a presença de quatro ou mais desses critérios em um período de 12 meses. Mas mesmo antes disso, se qualquer um desses padrões está presente na sua vida, ele merece atenção.

O que costuma andar junto com o vício em jogos em mulheres?

O jogo patológico raramente vem sozinho. Em mulheres, a comorbidade com outros transtornos psicológicos é especialmente alta e isso precisa ser considerado no tratamento.

Uma revisão narrativa publicada em 2025 sobre comorbidades do Transtorno do Jogo encontrou que mulheres apresentam maiores taxas de transtornos de humor, ansiedade e comportamento suicida associadas ao jogo patológico do que homens. Os transtornos mais comuns incluem:

  • Depressão: presente em até 75% dos casos de jogo patológico, segundo dados do NIMH

  • Ansiedade: 60% dos jogadores patológicos apresentam algum transtorno de ansiedade, com ansiedade social mostrando as associações mais fortes, especialmente em mulheres jovens

  • TEPT e traumas: histórico de experiências adversas na infância e violência aumentam significativamente a vulnerabilidade

  • Transtornos de personalidade: especialmente os relacionados à regulação emocional e à autoimagem

  • Uso de substâncias: álcool e outras substâncias aparecem como comorbidade em parte dos casos

Por que isso importa? Tratar só o comportamento de jogar sem cuidar do que está por baixo, a ansiedade, o trauma, a depressão, a solidão — é como tapar um buraco no telhado sem consertar a estrutura. O tratamento eficaz precisa olhar para o todo.

Como a hipnoterapia pode ajudar no vício em jogos?

A hipnoterapia é uma abordagem terapêutica que trabalha em estado de relaxamento profundo para acessar e modificar padrões automáticos da mente os mesmos padrões que alimentam comportamentos compulsivos como o jogo.

Diferente de abordagens que trabalham apenas no nível consciente, a hipnose alcança as camadas onde ficam armazenadas as crenças, os gatilhos emocionais e os mecanismos de fuga que sustentam o vício.

E é exatamente aí que o trabalho precisa acontecer.

As pesquisas nessa área mostram resultados consistentes:

Redução do craving e dos gatilhos

Estudos mostram que a hipnoterapia pode reduzir o craving (compulsão imediata) em vícios comportamentais e de substâncias em uma média de 26% a 35% com efeitos que se mantêm de 3 a 6 meses após o tratamento. Para o jogo, isso significa menos urgência no momento em que o gatilho aparece.

Aumento das taxas de abstinência

Uma revisão de evidências mostrou que a hipnoterapia combinada ao tratamento convencional melhora as taxas de abstinência em 33% a seis meses em comparação ao tratamento isolado. Um estudo separou 49 participantes com vício em jogo em dois grupos, um usando TCC com hipnose autoadministrada e outro usando TCC convencional.

Ambos mostraram reduções significativas nos comportamentos de jogo, com manutenção dos resultados após seis meses de acompanhamento.

Trabalho nas raízes emocionais

Para mulheres cujo jogo funciona como fuga emocional, a hipnoterapia oferece algo que outras abordagens muitas vezes não alcançam: a possibilidade de ressignificar as memórias e crenças que criaram a necessidade de fugir.

Traumas relacionais, crenças de autopunição, medo de sentir, tudo isso pode ser trabalhado em estado hipnótico, de forma segura e guiada.

Regulação do estresse e das emoções

A hipnose reduz os níveis de cortisol (hormônio do estresse) em média 31% e o estresse crônico é apontado como um dos principais gatilhos de recaída em 60% a 70% dos casos de dependência comportamental.

Ao criar uma base emocional mais estável, a hipnoterapia reduz a probabilidade de que situações difíceis se tornem gatilhos para o jogo.

Fortalecimento do autocontrole e da autoestima

A hipnoterapia trabalha diretamente no fortalecimento da percepção de autoeficácia, a crença de que você é capaz de fazer escolhas diferentes. Para mulheres que carregam culpa, vergonha e sensação de perda de controle, isso é parte fundamental da recuperação.

Mulher e vício em jogos na internet

A hipnoterapia sozinha resolve?

Honestamente: depende da profundidade e da história de cada caso. Para transtornos leves a moderados, a hipnoterapia pode ser suficiente como abordagem principal. Para casos com comorbidades, depressão, ansiedade, trauma, dependência de substâncias, ela funciona melhor como parte de um cuidado integrado.

Pesquisas mostram consistentemente que hipnose + TCC produz resultados superiores a qualquer uma das abordagens isoladas.

O ideal é que a hipnoterapia faça parte de um plano de cuidado que pode incluir acompanhamento psicológico, suporte de grupos terapêuticos e, quando necessário, avaliação psiquiátrica.

O que é importante saber: a recuperação do jogo patológico não exige vontade de ferro. Exige suporte adequado, abordagem correta, e alguém que entenda o que está por trás do comportamento, não só o comportamento em si.

Como é o processo na prática? O que acontece nas sessões?

A primeira sessão começa com escuta. Antes de qualquer técnica, o terapeuta precisa entender sua história: quando o jogo começou, o que costuma disparar o comportamento, o que você já tentou, como está seu estado emocional geral.

Nas sessões de hipnoterapia propriamente ditas, você é guiada para um estado de relaxamento profundo, consciente, segura, no controle. Nesse estado, o trabalho pode envolver:

  • Identificação e ressignificação dos gatilhos emocionais que precedem o jogo

  • Trabalho com memórias e crenças que sustentam o comportamento

  • Criação de novas respostas automáticas para situações de estresse ou solidão

  • Sugestões de fortalecimento da autoestima e do autocontrole

  • Ancoragem de estados de calma para usar fora das sessões

A maioria dos protocolos trabalha com entre seis e dez sessões. Algumas mulheres percebem mudanças na urgência e nos pensamentos sobre o jogo já nas primeiras semanas. O ritmo é sempre individual.

Quando buscar ajuda e por que não esperar a crise chegar ao fundo?

Existe um mito de que é preciso "bater no fundo" para buscar ajuda. Não é verdade e esperar esse ponto muitas vezes significa mais dívida, mais desgaste nos relacionamentos, mais dano à saúde emocional.

Se você reconhece algum dos sinais abaixo, já é hora de conversar com alguém:

  • O jogo está ocupando um espaço mental que você não quer que ele ocupe

  • Você já tentou parar ou reduzir e não conseguiu

  • Existe alguma mentira ou segredo associado ao comportamento

  • Você percebe que joga mais quando está mal emocionalmente

  • Há consequências financeiras que estão te preocupando

  • A culpa e a vergonha estão maiores do que o prazer

Você não precisa resolver isso sozinha. E não precisa esperar piorar para merecer cuidado.

Conclusão

O vício em jogos em mulheres tem características próprias e por muito tempo essas características foram ignoradas. A mulher que joga para não sentir, para escapar de uma vida que ficou grande demais, para encontrar um momento que seja só dela, mesmo que destrutivo, essa mulher existe.

E ela merece uma abordagem que entenda essa história, não só que tente apagar o comportamento.

A hipnoterapia oferece exatamente isso: uma forma de trabalhar nas raízes do comportamento, não só nos ramos. De cuidar do que está por baixo, o estresse, o trauma, a solidão, a necessidade de controle, para que o jogo deixe de ser a única saída disponível.

A recuperação é possível. E começa com uma conversa honesta.

Perguntas frequentes sobre vício em jogos em mulheres

O vício em jogos afeta mais homens ou mulheres?

Historicamente, mais homens recebem diagnóstico de Transtorno do Jogo, mas isso não significa que mulheres sejam menos afetadas.

O perfil feminino do vício é diferente, muitas vezes menos visível, e por isso menos diagnosticado. Com a expansão das apostas online, a prevalência em mulheres está crescendo significativamente.

Apostas online e aplicativos de cassino também causam vício?

Sim, e são especialmente problemáticos. A acessibilidade (disponível 24h, pelo celular, em casa), a privacidade e a velocidade das apostas online tornam esse formato particularmente propenso a criar dependência.

Para mulheres que usam o jogo como fuga emocional, jogar sozinha à noite pelo celular pode escalar muito mais rápido do que jogar em um ambiente social.

É possível parar de jogar sem ajuda profissional?

Para casos leves, algumas pessoas conseguem reduzir com estratégias próprias.

Mas quando o comportamento já apresenta vários dos critérios do Transtorno do Jogo, especialmente tentativas frustradas de parar, mentiras e impacto emocional ou financeiro, o suporte profissional aumenta significativamente as chances de recuperação real e duradoura.

A hipnoterapia funciona para qualquer pessoa?

A maioria das pessoas pode se beneficiar da hipnoterapia, inclusive aquelas com baixa hipnotizabilidade. O terapeuta adapta as técnicas ao perfil de cada pessoa.

O que varia é a profundidade do trabalho e o número de sessões necessárias.

Como falar sobre esse problema com alguém próximo?

Escolha um momento calmo, sem conflito em andamento. Fale sobre o que você está sentindo, não sobre o comportamento em si. "Estou percebendo que perdi o controle sobre algo e quero buscar ajuda" é mais fácil de ouvir do que uma lista de consequências.

Se não consegue falar diretamente, buscar ajuda profissional primeiro pode te dar o suporte para ter essa conversa.

Quantas sessões de hipnoterapia são necessárias para resultados?

Protocolos para dependências comportamentais costumam trabalhar com seis a dez sessões.

Mudanças no craving e nos gatilhos podem ser percebidas nas primeiras semanas, mas o trabalho mais profundo nas crenças e na regulação emocional, acontece ao longo do processo. Na Conectar Mentes, o plano é sempre construído de forma individual.

Se você se reconheceu neste texto e está em Santa Catarina ou São Paulo, o atendimento presencial da Conectar Mentes está disponível para você.

Também atendo online.Você não precisa resolver isso sozinha e não precisa esperar piorar para merecer cuidado. Agende sua primeira conversa.

Referências

Frontiers in Psychology. Exploring the psychosocial characteristics of women with gambling disorder through a qualitative study. 2023. https://doi.org/10.3389/fpsyg.2023.1294149

PMC. Association Between Gambling Motives, Violence and Early Maladaptive Schemas in Women with Gambling Disorder. 2024. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC11390860/

Tandfonline. Gambling disorder comorbidity: a narrative review. 2025. https://www.tandfonline.com/doi/full/10.1080/19585969.2025.2484288

Springer. Examining the Strength of the Association Between Problem Gambling and Gambling to Escape: A Systematic Review and Meta-Analysis. 2024. https://link.springer.com/article/10.1007/s11469-024-01354-5

Birches Health. Can Hypnosis Help Treat Gambling Addiction? https://bircheshealth.com/resources/hypnosis-gambling-addiction

Riverside Recovery. Hypnosis for Addiction: Does It Work? https://rrtampa.com/self-hypnosaddiction-recovery/

Ovid / LJMH. Clinical Hypnosis in the Prevention and Treatment of Addiction and Mental Health Disorders: A Narrative Review. 2026. https://www.ovid.com/jnls/ljmh/fulltext/10.4103/ljmh.ljmh_5_26

USP / Terra. Vício em jogo cresce no Brasil e pode até levar à falência. https://www.terra.com.br/vida-e-estilo/saude/vicio-em-jogo-cresce-no-brasil-e-pode-ate-levar-a-falencia,a410b2519a57e88ec9af93880ac10867bj5md2mu.html

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